No Dia do Nordestino, atores confessam amor pela terra natal


O Nordeste do Brasil sempre foi um celeiro de grandes talentos da teledramaturgia e das artes em geral. Marco Nanini, Arlete Salles, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Chico Anysio, Renato Aragão, Tadeu Mello, Fabiana Karla, João Falcão, Guel Arraes são alguns nomes consagrados que saíram dos seus estados para atingir o público dentro e fora do país, colecionando sucessos em suas carreiras.

Nesta sexta-feira (8), comemora-se o Dia do Nordestino. E a data aguçou as anteninhas ativas do Famosidades. Puxando a comemoração para a dramaturgia, é só parar um pouco para perceber que novelas e minisséries que são atualmente exibidas na TV aberta pouco abordam o Nordeste e seu povo. A maioria das produções se restringe ao eixo Rio x São Paulo, e nós queremos saber o porquê.

Para isso, o Famosidades conversou com alguns nordestinos ilustres, como Lázaro Ramos. Um dos atores mais talentosos e premiados de sua geração, Lázaro nasceu em Salvador, na Bahia, e há dez anos mora no Rio de Janeiro, onde veio para se fixar como ator. Quando questionado sobre o tema proposto, o marido de Taís Araújo afirmou que, em sua opinião, o fato das produções focarem mais o Sudeste é um fenômeno recente.

“Antes, autores como Dias Gomes e também o Aguinaldo Silva sempre procuravam retratar o Nordeste de alguma forma em suas novelas. Confesso que sinto falta de ver mais obras de Jorge Amado na TV, como passavam antigamente. Parou-se de exibir e eu não sei bem o porquê. Os autores e as emissoras deveriam voltar a produzir mais sobre o Nordeste e também no Nordeste. Vejam a série 'Ó Pai Ó'. Ela teve uma ótima repercussão e falou lindamente da Bahia, mais precisamente sobre a população do Pelourinho, e mostrou todo o colorido, a alegria e a ginga do meu povo baiano. Me emocionei muito com essa produção”, afirmou.

Lázaro explicou que como as grandes emissoras de televisão se localizam na região Sudeste, isso pode agravar ainda mais o problema. “Talvez a desculpa seja o fato das emissoras estarem todas por aqui, o que se torna mais viável e mais confortável também filmar ou gravar entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro”, completou.

Pernambucana de Paudalho, a atriz Arlete Salles também entrou na discussão. Ela, que mora no Rio desde 1964, concordou com Lázaro. Arlete também gostaria de ver mais produções realizadas na região. “Acho que isso acaba acontecendo em todo mundo. Ou seja, tudo acontece mais nos grandes centros dos países. É assim nos Estados Unidos também. Os outros estados têm curiosidade pelo o que acontece aqui no Rio e em São Paulo, isso é fato. O que acontece nos centros urbanos talvez seja mais atrativo", arriscou a veterana.

Assim como Lázaro, Arlete relembrou grandes nomes que defenderam o Nordeste na dramaturgia. "Vez ou outra acontece de algum autor escrever sobre o Nordeste, como fazia Jorge Amado que sempre falou da sua Bahia. Eu mesma já interpretei a Carmosina, uma baiana arretada na novela 'Tieta', escrita por ele. Temos também o Ariano Suassuna que fala tão sabiamente do sertão. Seria mais legal se tivéssemos mais autores nordestinos, como o Aguinaldo [Silva], que é pernambucano como eu e nunca se esquece de mencionar algo da nossa região”, constatou.

A atriz Fabiana Karla, que começou a carreira fazendo teatro amador aos 15 anos (hoje ela tem 34), revelou ao Famosidades que saiu de Recife em 2002 para tentar a vida no Rio de Janeiro. Para ela, o fato das novelas focarem mais na região Sudeste seria uma opção particular de cada autor. E além de "Tieta", Fabiana relembrou "Gabriela", "Tropicaliente" e, mais recentemente, "Senhora do Destino".

"Nelas [nas obras], o objetivo dos autores era mostrar uma paisagem diferente da habitual, ou seja, sair um pouco fora desse circuito daqui do Rio e de Sampa”, completou. “E bem que poderiam fazer mais nordestinos bem sucedidos, como foi a personagem Maria do Carmo em 'Senhora do Destino'. Até mesmo para não ficar sempre o estigma de que nordestino só pode interpretar o porteiro e a faxineira”, ponderou.

Já o ator Tadeu Mello - nordestino com orgulho e cearense de corpo, alma e coração, como costuma dizer - acredita que tanto o Rio como São Paulo acabam sendo referências de como é o mundo globalizado. “Novelas que são ambientadas no Nordeste têm uma característica muito própria e particular a meu ver”, revelou.

Fabiana e Tadeu ainda têm um ponto em comum fora o sotaque delicioso: o humor. Aliás, esta característica e o jogo de cintura, de fato, são traços marcantes do povo da região em foco no dia de hoje.

“O nosso povo tem senso de humor, alegria de viver explícita, ele é muito brasileiro na sua essência. Temos uma característica muito forte do que é ser e fazer parte mesmo desse país. Sabemos driblar também, como ninguém, os problemas do dia a dia e conseguimos tirar tudo de letra”, contou Tadeu, que nasceu em Fortaleza e há 25 anos mora no Rio de Janeiro.

“Vim para uma cidade maior, com mais estrutura só para ser ator. Em 1985 não dava para sobreviver atuando por lá. Hoje talvez seja diferente, já que todo o Ceará está bem mais desenvolvido”, disse.

Fabiana concordou com o colega e acrescentou: “O humor do nordestino realmente contagia. Nossa gargalhada e nosso bom astral são o cartão de visitas. Somos um povo tão lindo e criativo! Olha, se eu nascer de novo, queria voltar novamente como nordestina!", orgulhou-se.

A atriz afirmou ainda que o seu sotaque nordestino fica, incrivelmente, mais neutro quanto ela está atuando. “Eu não trabalhei para isso. Vem acontecendo de uma forma natural. Por isso, posso interpretar tanto uma nordestina, como também alguém aqui da região Sudeste numa boa. Não acho que o sotaque pode vir a atrapalhar. Depende muito da proposta, pois pode acontecer do mesmo jeito se fosse com um gaúcho ou um mineiro”, revelou a atriz, que destaca as produções “Lisbela e o Prisioneiro”, de Guel Arraes, e "A Máquina", de João Falcão (que ela, inclusive, fez parte do elenco), como as que melhor retratam o cenário do Nordeste.

Saudosista, Lázaro, que começou sua carreira no Bando de Teatro Olodum, grupo só de atores negros de Salvador, revelou ao Famosidades que ainda sente muita falta da sua terrinha natal.

“Como nordestino que sou amo aquela região! Lembro ainda que a primeira vez que eu vim para o Rio foi para atuar na peça ‘A Máquina’, do querido João Falcão. Isso foi há dez anos. Mas eu só assumi fixar moradia por aqui há apenas cinco anos. O engraçado é que o enredo desta peça fazia críticas aos formatos dos filmes e do cinema, pois a história girava em torno de um rapaz chamado Antônio [personagem de Lázaro], que morava numa cidade chamada Nordestina, no Nordeste, que é uma cidade muito pequena e que nem existia no mapa [risos]. E os habitantes desse povoado aos poucos vão, um a um, deixando a cidade em busca do 'mundo'. É o que, de fato, acontece com o povo nordestino, que sai de sua terra em busca de trabalho nos grandes centros”, destacou.

Para ele, a capacidade de criar o tempo todo é a característica mais relevante do povo nordestino.“Eu viajo muito por lá e percebo isso cada vez mais. Assisti a um filme agora, recente, que se chama ‘Viajo Porque Preciso. Volto Porque Te Amo’, que mistura linguagem de documentário com ficção. E mostra uma viagem pelas estradas do Nordeste, onde evidencia bem esse povo que gosta de criar, de produzir pensamentos e ideias. Eu percebo que há muitos produtos de TV e peças locais nas regiões nordestinas que são excelentes e muito assistidas pela população local. Acho que o próprio Nordeste vai se impor por ele mesmo em relação à mídia em geral para mostrar sua arte”, confessou.

Arlete é outra que afirmou que a alegria contagiante do povo nordestino é realmente o seu traço mais marcante. “Me alegra ser nordestina! Costumo dizer que nós somos um povo trágico-cômico. Pois é, a gente consegue rir mesmo enfrentando enormes dificuldades. Fora que somos um povo bastante ligado com música, dança, festa, arte e, principalmente, o humor. Isso torna mais leve a nossa caminhada na vida, sabe... De fato, o Nordeste é uma das regiões mais ricas quando o assunto é cultura”, desabafou.

O papo caiu no Governo Federal, que, segundo a atriz, deveria criar mais condições para que a população não tivesse que sair de sua terra natal em busca de trabalho nas grandes cidades.

“Eu mesma vim para o Rio para trabalhar. Eu já era atriz e lá em Pernambuco não teria como exercer a profissão, na época. Morei no subúrbio de Recife durante toda a minha adolescência. Mas, como minha grande paixão é e sempre foi a atuação, tive que sair de lá e preciso ficar por aqui. No sudeste me sinto ativa. Mas sempre visito minha terra, quando posso”, finalizou.

Fonte: MSN
Foto alterada por Carol Monteiro